Changeman - A Trilogia da Torre de Babel



Changeman - A Trilogia da Torre de Babel 

Na minha infância sempre gostei dos tokusatsus (seriados japoneses) que passavam na extinta TV Manchete, e de longe minha série favorita era o Esquadrão Relâmpago Changeman. Mas isso foi antes de conhecer o Tio Japa (Paulo Takashi) e a fita VHS conhecida como “Trilogia da Torre de Babel”.



Lembro que naquela época também um dia, numa manhã chuvosa, em que a Manchete pegava muito mal em casa, assisti a um capítulo cheio de chuviscos e com o som mal-editado, com o áudio pulando para o japonês algumas vezes e as BGMs (canções de fundo) estranhas, que não se pareciam com as trilhas normais do seriado. Lembro vagamente que no capítulo o Senhor Bazoo mandava vir um monstro de outro planeta (óbvio), e que ele se parecia com um boneco de vodu todo espetado, e que os Changeman lutavam contra ele na pedreira da Toei com uma torre de pedra em ruínas ao fundo. Na época meus coleguinhas de escola me zoavam e falavam que eu tinha inventado a história.

Mas o que mais me assustava nesse capítulo, uma cena que nunca me saiu da cabeça, era quando o Comandante Giluke ficava frente a frente com Change Dragon e, ao invés de atacá-lo, do nada começava a chorar e berrar, escorrendo lágrimas cor de piche pela maquiagem.

Mas daí eu conheci o Tio Japa e descobri que a história era verdadeira! Tio Japa, cujo verdadeiro nome era Paulo Takashi (o sobrenome eu esqueci) tinha uma locadora lá para os lados da Liberdade, perto da rua Galvão Bueno, onde ele também vendia jogos de videogame, comidas japoneses, bonecos, fitas VHS de fansubbers e tudo que era tranqueira vindo do Japão. De cabeça branca mas duma idade indefinida, o velho oriental parecia entender tudo de tokusatsus e conseguia episódios das séries mais recentes para nós num tempo em que a Internet ainda engatinhava.

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Até que um dia comentei com ele que eu era muito fã de Changeman, tinha comprado os DVDs novos lançados da série e tinha até hoje os bonecos, quando comentei com ele sobre esse episódio “perdido” que eu vi na Manchete. Na hora a cara do Tio Japa mudou de expressão e ele ficou visivelmente preocupado:

“Então você também sabe?”, disse ele, resmungando umas coisas em japonês logo em seguida. Então me pegou pelo braço e me levou até o almoxarifado da locadora, “eu acho que todas as crianças que já viram por acidente os episódios da trilogia da Torre de Babel precisam saber disso”.

Lá ele abriu um armário velho, cheia de fitas mofadas, e tirou de um estojo plástico sem rótulo uma fita com jeito de nova, com uma etiqueta onde estavam rabiscados a caneta umas letrinhas nipônicas e o nome BABERU TAWA 3.

“Foi um erro, um erro gravíssimo, ninguém na Manchete poderia saber, eles não têm culpa, não, não, não”, e subitamente Tio Japa ficou confuso e começou a falar coisas sem nexo. Desconfiado, guardei a fita na minha mochila e corri até a estação Liberdade do Metrô, e não me aguentava de curiosidade de ver filme, sorte que naquele tempo eu morava perto da República.

Sozinho em casa, meus pais tinham saído e minha irmã estava viajando, instalei o videocassete antigo que mal funcionava direito e coloquei a fita pra rodar.

No começo, só uns quinze ou vinte segundos de tela preta e muitos chuviscos, até achei que a fita ou o aparelho tinham um defeito, mas depois apareceu na tela o logo da Toei Company, um triângulo com um ideograma, e, em preto e branco e com a imagem pulando de leve, começou a abertura, inclusive com legendas em português da Everest Video. Mas a música-tema estava num volume muito baixo e com o som distorcido, como se a fita já estivesse estragada, e nada das cores. Mas mesmo assim vibrei com o tema do meu seriado preferido e fiquei mais empolgado ainda em assistir a um episódio perdido.

O episódio começa com um corte para a Nave Gozma, o Senhor Bazoo aparece para dar uma bronca nos seus subordinados e a as cores enfim aparecem. O cenário está levemente diferente, com menos elementos, como se tivesse sido montado de qualquer jeito para a gravação, mas a dublagem é a brasileira. O Senhor Bazoo também está estranho, apesar de ser o mesmo ator que o interpreta, o efeito especial dele está diferente, meio vermelho e marrom, não sei se de propósito ou pela degradação da fita. Estão lá Giluke, Buba, Gaata, Shima e Ahames, estranho a ausência de Gyodai, e Shima, que era dublada com voz de homem, nessa versão tinha a voz de uma mulher, a mesma dubladora da Sayaka (Change Mermaid), num erro de dublagem que até então nunca tinha ocorrido.

O som está péssimo para ouvir, e por isso tive de botar o volume no máximo. Só se escutam os resmungos do Bazoo:

“Malditos Changeman! Giluke, seu idiota! Como vocês não conseguem vencer os Changeman e conquistar a Terra, eu apelarei para a Operação Torre de Babel” 

“Senhor Bazoo, piedade! Os Changeman são nossos inimigos, mas usar a Torre de Babel contra eles é muita covardia!” 

“SILÊNCIO, GILUKE! Venha a vim, Monstro Espacial...”, e nesse instante o áudio corta para um chiado e não sabemos o nome do monstro convocado por Bazoo.

O céu estrelado atrás do vilão fica então vermelho e se enche de chamas e lava, como se fosse o Inferno, e a Nave Gozma é invadida por um daqueles monstros fajutos de plástico e borracha, imitando um boneco de vodu cheio de agulhas e alfinetes, com dois chifres de demônio e a boca costurada, os olhos só dois furos no saco da fantasia, de onde escorrem lágrimas negras. Ao contrário dos outros monstrengos, a fantasia desse era muito estranha e ele de fato era muito mais assustador.

É visível que os vilões do Gozma ficam espantados na presença desse monstro espacial, e logo todos saem de cena e ficam de frente para Bazoo só o monstro boneco e Giluke. Nessa hora a imagem fica muito granulada e não dá para ver muita coisa, o som coberto pela estática.

É nessa hora que começo a perceber que tem alguma coisa estranha nisso tudo. Sinto calafrios e uma vontade louca de desligar o vídeo e levar a fita de volta para o Tio Japa, mas algo me prende a ela e, boquiaberto, suando frio, continuo assistindo aquele episódio absurdo, sem conseguir desgrudar da TV.

Acho que o Senhor Bazoo está explicando um plano mirabolante, não sei, pois, ao lado dele, no céu vermelho e flamejante, passam umas fotos e cenas aleatórias (quanto mais tento entendê-las, mais encucado eu fico): crianças esqueléticas na África, cadáveres de soldados, a menina nua que corre no Vietnã daquela foto famosa (juro!), fotos que eu acho que são de Hiroshima, animais mortos e despedaçados, camas de hospital com mutilados e doentes terminais, cidades destruídas por incêndios e terremotos, imagens de cadáveres carbonizados e uma imagem em preto e branco que se parece com as Torres Gêmeas pegando fogo (a série é de 1985!). Mas a falta de áudio e de contexto da cena deixava tudo aquilo mais assustador.

Mas de repente as vozes voltam, ainda meio chiadas e agudas:

“A Operação Torre de Babel vai começar!”, proclama o Senhor Bazoo.

Então, numa imagem estática de todos os vilões ajoelhados e com os rostos cobertos, em visível desespero, o vulto do monstro vodu atrás, surge o título do capítulo em japonês, até com as legendas em português da Everest Vídeo e a vinheta conhecida: OPERAÇÃO TORRE DE BABEL.

Naquele momento pausei e achei que não teria coragem suficiente para ir até o fim. Mas minha curiosidade de fã me impelia a ir além. Não teve jeito. Soltei a fita de novo e, após um salto de chuviscos, a cena focaliza o interior escuro e vazio da base secreta dos Changeman. A mesa do Sargento Ibuki está sob a luz de uma vela e todos os computadores estão desligados. Sobre ela há um objeto branco que se parece com uma imagem de santa, ao lado da vela.

Tomei um susto quando vultos apareceram no vídeo, mas eram os cinco heróis do esquadrão se encontrando com o chefe. A câmera dá um close na face abatida e doentia do Sargento Ibuki, que fala numa voz sumida e meio rouca para eles, que, incrivelmente, era a mesma do dublador brasileiro:

“Nós não temos mais esperanças; o pior aconteceu. Gozma vai lançar a Torre de Babel contra nós; guardem essas minhas palavras, pois o Mal está próximo. Se arrependam enquanto ainda há tempo”.

Lentamente a tela vai ficando vermelha (pensei ser outro defeito da fita), travando o frame na imagem desesperada do ator que fazia o Ibuki, e ficando assim por quase um minuto, de vez em quando tremendo, com o som substituído por um irritante som de estática e de descargas. Ora a imagem escurecia, ora ela clareava, num momento ela até mesmo duplicou.

Virei o rosto, peguei o controle remoto e corri para a cozinha que ficava do lado da sala, já assustado, sem conseguir ver aquilo. Maldita hora pro controle enguiçar, porque ele não conseguia nem desligar a TV e nem mudar de canal. Com a sala escura, eu não tinha coragem de ir na sala enquanto aquele brilho vermelho se espalhava pela sala escura, nem de olhar pra cara congelada de desespero do Sargento Ibuki.

Quando o som mudou, voltei pra sala, tremendo, e encontrei a tela chuviscada, respirei aliviado de que enfim aquele tormento acabara. Mas a fita voltou a funcionar do nada e saltou para uma outra cena, que já se parecia com uma cena normal do seriado. Os Changeman tinham se separado para a missão: Tsurugi, Hayate e Oozora estavam numa escola tipicamente japonesa e Sayaka e Mai vasculhavam um galpão abandonado que já tinha aparecido em outro capítulo.

Tudo parecia normal até que...Hayate brincava com as crianças enquanto perguntava para elas sobre a morte de um coleguinha, até que Oozora tira do casaco azul uma foto em preto e branco e elas se aterrorizam com a figura. No armazém abandonado, uma espécie de depósito de lixo, Mai e Sayaka encontram o que aparece ser uma casa em ruínas, totalmente destruída, com várias fotos espalhadas pelas paredes. Uma delas, em preto e branco, assusta as duas, e ela mostra duas crianças sem rosto, paradas em posição de sentido, um crucifixo pregado numa parede, a sombra de uma mão com seis dedos indo na direção delas e...da foto escorre um fio de sangue.

“É Gozma”, é o que dá para entender ela dizendo, porque o áudio volta a ficar abafado “VAMOS CHANGE, CHANGE MERMAID!” 

As duas se transformam, e eu estranho a ausência das músicas de fundo da hora da transformação. Logo o seriado retoma seu jeito habitual, com o ataque dos soldados Hiddler e a aparição de Shima e do monstro vodu. Change Phoenix e Change Mermaid lutam contra os monstros, soltam seus poderes e dão seus golpes, mas, na hora de encarar o Monstro Espacial, Shima subitamente se vira contra ele e ajuda as heroínas:

“Changeman, nós estamos do seu lado! O Senhor Bazoo foi longe demais. Matem o monstro antes do anoitecer e rezem, rezem muito. Não temos tempo...” falou Shima com a mesma voz da Sayaka.

O monstro dispara um raio e a tela fica novamente vermelha! Achei que era um efeito especial por causa da batalha, mas não; o rosto do Sargento Ibuki apareceu de novo, agora ele segurava a vela e ao seu lado estava a santa, e ele dizia:

“Eu disse que não haveria mais esperança. A noite está chegando e não há nada que se possa fazer”, e o áudio mudava para o japonês no meio da frase, ao término da qual o sargento juntava as mãos, abaixava a cabeça e uma lágrima escorria de seu rosto. E o frame congelava de novo!

Agora a música que acompanhava o vídeo era um canto gregoriano altíssimo, em que as vozes sumiam e depois era substituído por um órgão desafinado, parecia até música de igreja. Meu medo era tanto que não tive escolha senão correr até o videocassete e apertar todos os botões, para ver se eu avançava o filme. Imagine como foi difícil se aproximar do televisor gravado com aquela imagem horrenda.

Então botei a fita pra frente e me surpreendi ao ver o logotipo da série, com aquelas letrinhas de sempre, ao invés de ter o planeta Terra sobre os escritos, o que havia era um símbolo negro, uma lua cheia, com uma cruz desenhada por cima. Embaixo, uns caracteres japoneses e a legenda em inglês “Changeman, Babel Tower Trilogy: 2/3”.

O segundo episódio! E pensar que ainda tinha um terceiro...lá fora já tinha escurecido e um trovão ecoava pelo céu, ia ter chuva. A casa estava às escuras, e eu nem tinha ânimo de acender as luzes.

O episódio do meio (que eu descobri que foi o que eu tinha visto na Manchete) começava com os Changeman de volta à base, ela ainda às escuras, com algumas sombras e vultos correndo pelos corredores e destruindo as máquinas. Transformados, Change Griffon e Change Pegasus lutavam contra os espectros, enquanto que, ao fundo, Sargento Ibuki e Change Dragon, junto com os outros oficiais dos Defensores da Terra, ajudavam as duas heroínas, que estavam com as roupas rasgadas, sujas, muitas feridas e Sayaka (Change Mermaid), com um ar doente. Mai (Change Phoenix) estava paralisada em estado catatônico.

Change Pegasus e Change Griffon comentavam entre si que a luta fora tão difícil, o que eles foram obrigados a ver era tão aterrorizante, que o Change Robô vertera sangue por entre suas peças (?), que ambos desejavam morrer a ter que passar por tudo de novo. Sayaka então vomitou uma gosma verde ao chão, cheia de vermes, enquanto que o sargento examinava as costas feridas por picadas de agulhas de Mai, e eis que Change Mermaid lhes mostra uma ferida na palma da mão em formato de cruz, parecia com uma queimadura:

“É o começo da minha morte, o Mal está me corroendo por dentro e vai corroer todos vocês. Nós somos doentes. Logo estaremos juntos das crianças sem rosto, a mão de seis dedos vai nos pegar”, dizia ela, confusa.

“Eu mereço ser punido por tudo o que eu fiz”, responde enigmaticamente Tsurugi (Change Dragon).  

Ao fundo, a câmera dá um zoom e, atrás de uma barreira de destroços, vemos alguns vilões do Gozma, Shima está encolhida a um canto, espancada e ferida como as outras duas, de uma maneira que sugere estupro, Ahames é amparada por Buba numa convulsão (e a câmera dá close em seu rosto, babando e com os olhos revirados), enquanto que Gaata, que eu sempre achei o alívio cômico da série, tem os braços e pernas decepados, enquanto dois soldados Hiddler tentam socorrê-lo, e só consegue grunhir “Misericórdia, misericórdia, sem mais sofrimento!”.

Daí apareceu o título em japonês do episódio, também traduzido numa legenda em português: “As mãos sofridas que não cessam de sangrar, versão brasileira, Álamo”, um título muito esquisito para um capítulo de tokusatsu.

E (já estava ficando esperto pra evitar esses transtornos), já fiquei de prontidão antes que a tela ficasse vermelha de novo, quando o Sargento Ibuki olhou para a câmera, com os olhos vermelhos, e começou a falar com a lente, com a vela na mão (o mesmo toco, que não derretia):

“Arrependimento, penitência, castigo, morte, ódio, doença, tristeza, medo, chegou a hora”, mas, assim que o quadro ficou em preto e branco e ameaçou avermelhar, já apertei a tecla pra pular a fita.

Já estava lá pro meio do episódio 2 e começava a luta contra Giluke e o monstro vodu na pedreira da Toei, com uma “Torre de Babel” ao fundo, e só então percebi que era esse o capítulo que eu tinha visto na TV. Mas aí o que antes era aquela coisa esquisita se transformava num animado capítulo do Esquadrão Relâmpago, com pulos, explosões, raios e golpes de artes marciais, nem parecia com aquela coisa esquisita de antes. Mas o efeito especial da pedreira me intrigava, pois o céu estava vermelho como sangue e aquelas chamas digitais que pareciam um inferno foram aplicadas.

Daí veio a cena de que eu lembro, do Giluke chorando, mais aterrorizante agora do que quando eu era criança: Change Dragon se envolve numa batalha de espadas com Giluke e, na hora H, o comandante de Gozma cai em prantos. E mostra para Change Dragon a foto das crianças sem rosto e a câmera dá uma geral na Torre...e eu não aguento e cubro os olhos, até a hora em que ouço a conhecida música da Base Shuttle e vejo as conhecidas cenas da montagem do robô! Ufa! Agora, pelo menos, a BGM é a mesma, o que me dá certo alívio, pensando que as coisas poderiam se normalizar.

Mas, quando o Change Robo é enfim completado, a música para e voltam os sons de piano e órgão. A tomada se dá num cenário noturno e o robô gigante está sozinho, olhando imóvel para o céu, com a torre às suas costas. De repente vem a voz do narrador, com um lúgubre efeito de eco:

“Pra quê lutar se o seu destino era esse, se não havia saída, se a morte o esperava no final? Valeu a pena lutar tanto e ferir tantos inocentes? Quem é o herói e o vilão aqui? O Mal está por todos os cantos, dentro de cada um de vocês. Só nos resta o desespero...” 

De repente, o robô de papelão se ajoelha, pega a Espada Relâmpago e faz a posição do harakiri. E, antes que o Sargento Ibuki venha dar mais uma lição macabra, eu esmurro o vídeo e jogo a fita pra frente.

Vejo o que parece ser o resumo do capítulo seguinte, uma série de imagens desconexas, um velório sendo feito na base dos heróis (e os caixões são vermelho, preto, azul, branco e rosa, os caixões de cada Changeman!), Sargento Ibuki com a pistola dos heróis na mão e enfiando-a na boca para se suicidar, corpos empilhados, a foto das crianças sem rosto (só de me lembrar dela hoje me faz gelar!) e um vulto desfocado do Senhor Bazoo, sem os olhos, a cara encharcada de sangue.

Fico com mais medo da tela vermelha e agora adianto o filme no terceiro episódio, quando a fita, já muito deteriorada e dando pau no vídeo, começa a saltar e tremer. Aquela experiência, eu percebi, tinha ido longe demais. Depois de muitos saltos e de tanto mexer e colocar o vídeo pra frente, cheguei a uma cena num cenário galático, no final do terceiro capítulo, uma espécie de planeta rochoso, em que Sargento Ibuki e Giluke conversam sozinhos. Giluke ainda chora muito e está com uma expressão confusa, sendo consolado pelo sargento:

“Isso tinha de acontecer. Nós lamentamos todos os mortos e feridos. Vamos esquecer tudo isso mas deixar um registro de que tudo isso aconteceu de verdade”, e assim se encerrava o capítulo. Para meu espanto, com o tradicional clipe de encerramento, com a alegre canção NEVER STOP, CHANGEMAN, como se nada tivesse acontecido e aqueles três capítulos não mostrassem nenhuma atrocidade.

Naquela noite, sozinho no apartamento, não dormi um segundo e escutei barulhos pela casa, rangidos e estalos da mobília, vento nas janelas, e, quando já amanhecia, mesmo com o videocassete ligado, senti cheiro de queimado e vi que ele queimou por causa de um relâmpago. Fiquei à noite toda debaixo das cobertas no quarto de luz acesa, tremendo. Só fui dormir direito umas duas noites depois.

No dia seguinte, fui entregar pro Tio Japa a fita e ele estava mais calmo. Até riu do meu susto e me irritei quando ele riu quando disse que a tela vermelha do Sargento Ibuki era assustadora. E ele me disse: 

“Eu trabalhei na distribuidora que trouxe a série pro Brasil e, quando as fitas chegaram, estranhei que vieram 58 episódios ao invés de 55, como quando fizemos a compra. Mas na semana em que traduzíamos e dublávamos a série veio um telegrama da Toei Company e eles avisavam que existiam três episódios, enviados por engano, que não estavam numerados, mas que eram conhecidos como BABERU TAWA 3, que não deveriam ser dublados, nem exibidos e nem lançados em vídeo”. 

“O telegrama ressaltava que sua veiculação era totalmente proibida e que cabiam penas legais severas para quem tivesse a posse dessas imagens, mas, desastrosamente, o material já fora dublado. O Seu Toshi (dono da Everest) mandou que recolhessem as fitas e destruíssem a gravação, não sem antes assistir ao material e ficar ele também horrorizado.” 

“Mas, por um engano, a TV Manchete exibiu o capítulo do meio da trilogia, o mais leve, em rede regional, num dia de chuva, durante o período das greves na emissora. Eu vi e me amedrontei. Por isso, acho que todas as crianças que viram aquilo têm o direito de saber da verdade”. Seu Paulo Takashi pegou a fita de minhas mãos e a trancou em seu armário.

Nunca mais soube do Tio Japa, pois ele fechou a locadora e foi morar numa cidade do interior de São Paulo. Até hoje me zoam nos fóruns por contar essa história, e, mesmo digitando BABERU TAWA 3 no Google não se encontra nada.

Mas um dia um colega meu que mexe com informática e é expert em navegar na Deep Web me mostrou um printscreen de uma página de downloads. O nome do arquivo era “BABERU_TAWA_3_BABEL_TOWER_TRILOGY.mpg”, e na descrição estava escrito “Trilogia Torre de Babel, Changeman Episódios Perdidos”. Mas eu não tive coragem de baixar e assistir. Esses dias ele me passou por e-mail uma imagem capturada de um dos episódios, que eu coloco abaixo, mas só veja se realmente tiver coragem:


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