O Casarão da Rua Flee

Era tarde da noite, algo em torno das 3:30 da manhã. A cidade estava fria, silenciosa e o tempo anunciava chuva. Eu e meu amigo estávamos voltando de uma noitada quando tivemos a ideia de entrar no casarão abandonado da rua Flee. O casarão da família Hopkins, que viveu ali durante duas gerações. Não foi preciso pensar muito - já que não estávamos pensando direito devido ao álcool. Decidimos ir.



A rua Flee era praticamente deserta e o único movimento que podia ser visto era o das folhagens e folhas das árvores quando sopradas pelo vento, assim como suas respectivas sombras que dançavam entre os muros. As vezes um ou dois cães também podiam ser avistados perambulando por perto. Chegamos a rua Flee em menos de 10 minutos. O casarão dos Hopkins ocupava um quarteirão inteiro, e as casas vizinhas, menores, estavam todas para alugar. Poucas eram as pessoas que moravam nas redondezas, se é que moravam. Pensando melhor agora, é bem raro ver uma luz acesa, mesmo nas casas habitadas. Os portões de metal do casarão estavam abertos, cobertos por ferrugem, folhagens e trepadeiras que desceram o muro e se enrolaram por entre as grades, forçando-as a permanecer sempre abertas. Entramos com o carro, devagar. Meu amigo ergueu a luz dos faróis; estava muito escuro e conseguíamos ver apenas o que era iluminado por eles. Parecia até que a luz da Lua não conseguia penetrar na residência. Uma fileira de mato e arbustos acompanhavam as laterais da estradinha pela qual o carro seguia - a vegetação reivindicou seu espaço, literalmente.

Feita apenas para pequenos automóveis passarem, a pequena estrada era cheia de curvas meticulosamente desenhadas. Ao final ela dobrava para a esquerda, e seguia adiante, fazendo mais uma curva que levava novamente até a saída. Estacionamos o carro bem em frente a enorme porta tom de vinho. Era uma porta dupla, com detalhes que lembravam aqueles portões medievais.

Construída em meados de 1950 pelo mais famoso arquiteto do estado da Califórnia, Jonathan Henrique Reew - que aparentemente cometeu suicídio logo depois de terminadas as obras - este enorme casarão nunca teve outros moradores depois da misteriosa morte de seus donos.

O dono original e idealizador da propriedade era o Sir. Henrique Hopkins, um rico empresário, dono da maior fábrica de porcelanas do Estado. Ele faleceu em 1985, suicidando-se com um tiro na cabeça. Naquele tempo, muitos rumores surgiram para explicar seu suicídio. O mais famoso dos rumores é o de que ele foi atingido por uma forte depressão após o falecimento de sua esposa, a Srta Louise Hopkins. Dizem que a depressão foi tanta que ele chegou a construir uma versão porcelana de sua amada, apenas para faze-lo companhia. Porém, isto nunca passou de um rumor, é claro.

Mas essa nem é a melhor parte. Após sua morte, a propriedade ficou para sua única filha, Mary Antonieta Hopkins. A garota herdou a casa muito jovem, aos 19 anos. Ela era de poucas palavras; seu cabelo avermelhado realçava a palidez de sua pele, assim como seus negros e delineados olhos. Mary não costumava sair de casa e também não gostava de receber visitas, nem mesmo de seus parentes. Era raramente vista até mesmo pelo jardineiro, que cuidava do terreno três vezes por semana. E para surpresa de todos, foi com este mesmo que ela se casou pouco tempo depois.

O jovem jardineiro e estudante de artes, Nicholas Creedance, costumava ser alegre, carismático, e tinha muito amigos, mas depois do casamento tornou-se frio e não aparecia mais. Seus amigos e familiares tentavam visita-lo, mas sempre arrogante, ele os mandava embora sem nem abrir a porta. As vezes até ameaçava as pessoas mais insistentes. Um primo de Nicholas disse que em uma de suas visitas, pela janela ele avistou o primo pintando o que parecia ser um manequim, ou algo do tipo. Ao perceber sua presença, Nicholas rapidamente fechou as cortinas e gritou para ele ir embora. Seu rosto estava magro, pálido e com olheiras.

Com o tempo os moradores foram se acostumando a estes terríveis vizinhos, e ninguém mais os visitava. Vários meses se passaram e ninguém mais nem ouvia falar deles. Quase um ano e meio e algumas pessoas passaram a comentar que nunca viam nem mesmo um carro entrar ou sair daquela residência. As correspondências nunca eram pegas, e o jardim também estava descuidado. O mato já até invadia a calçada. Estas circunstâncias levaram alguns policiais a ir investigar. Entraram facilmente pelos portões e bateram na porta, chamando pelos donos, mas estes não apareceram. Decidiram então arrombar, mas para surpresa deles, não foi preciso. Um pequeno empurrão e a porta abriu gentilmente, como se convidasse-os.

Segundo relatos, o interior da casa era deslumbrante e estava impecável. Tudo muito limpo e cuidado. Os enormes lustres iluminavam tudo e davam vida ao local e as decorações. O chão era tão limpo que refletia tudo, cada luz, cada móvel. Ao mesmo tempo, porém, a sensação de abandono era notável. Não havia som algum, a não ser o tec tec dos coturnos no frio piso. Os policiais então anunciaram a entrada e como ninguém apareceu, resolveram investigar a casa toda, começando pelo primeiro andar. A sala de estar estava em perfeita ordem, com a lareira acesa. O tapete marroquino limpo, sem pó, assim como todos os móveis. Certamente eles eram muito caprichosos, já que não possuíam empregadas domésticas.

Na cozinha, porém, a situação era diferente. Estava tudo um brinco, a louça posta a mesa, candelabros acesos, toalha, copos com vinho e tudo mais. Acontece que a mesa estava servida, com carne crua e apodrecida, tomadas por vermes. A salada e o restante encontravam se no mesmo estado. O vinho nas taças também cheirava mal. Aquilo foi horrível de se presenciar. Mas foi apenas no segundo andar que eles presenciaram cenas das quais nunca mais se esqueceriam. Símbolos e escritas em tom vermelho escuros manchavam as paredes de um dos corredores. Velas a muito tempo apagadas percorriam toda a extensão do mesmo, até chegarem a uma porta. A única porta daquele corredor esquisito. Ao se aproximarem, uma leve canção de ninar podia ser ouvida. Era uma bonita e acolhedora canção. Um dos policiais empunhou a arma e ficou em guarda, enquanto outro abriu a porta. Eles entraram e, o que viram, fez até o único ateu entre eles sussurrar o nome de Deus. 

O casal Mary e Nicholas estava deitado na cama de mãos dadas, com os dedos bem entrelaçados e olhos escancarados. Um enorme sorriso de satisfação estampava o rosto de ambos. Mary estava maquiada, vestia um vestido rosado de seda, sapatos vermelhos e um colar de brilhantes. Nicholas também estava elegante. Ele vestia um terno escuro, gravata e sapatos bem engraxados. Os dois estavam mortos e bastante decompostos.

O lado da cama um manequim pintado de forma realista estava sentado ao lado de um berço. Sua expressão era feliz, mas, havia algo estranho no sorriso daquele manequim. Parecia um sorriso de prazer. O berço a frente dele era a fonte daquela melodia, e deitados de costas um para o outro havia dois bebes em estado de decomposição. O choque foi tanto que os policiais só perceberam o terrível cheiro de morte e putrefação instantes depois.

Não demorou muito para a imprensa mundial tomar conta do local. Diversos rumores, histórias de terror, lendas e boatos surgiram ao longo dos anos. Os policiais que participaram da operação se recusaram a dar entrevistas, mesmo com enormes quantias sendo-lhes oferecidas. Os detalhes daquela tarde só foram expostos porque um familiar achou o diário de um dos policiais que liderou a entrada na residência. No diário ele contava tudo exatamente desta forma. Sua dificuldade para dormir, quando começava a ouvir choros de bebê e músicas de ninar durante a madrugada. Ele também falava das inúmeras vontades de cometer suicídio que invadiam sua mente ao longo dos anos; doas remédios que começou a tomar, e da luta diária que enfrentava para tentar parecer bem aos olhos de seus netos, que sabiam que algo estava errado. Mais tarde, porém, acabou sucumbindo e precisou de tratamento psiquiátrico. Ele morreu de causas naturais, poucos tempo depois, aos 69 anos.

As pessoas mantinham distância. Os moradores mais próximos se mudaram. A Rua Flee era uma rua mal vista, e como não havia ninguém que quisesse morar na residência dos Hopkins, os parentes de Nicholas venderam o casarão a um rico empresário que possuía planos para aquele enorme terreno. A casa e tudo mais deveria ter sido demolida a alguns anos atrás, mas até hoje isso não aconteceu.


Parados em frente aquela enorme porta vermelha, eu e meu amigo ainda decidíamos de deveríamos sair do carro ou não. Até que ele puxou o freio e retirou o cinto.

- A gente veio aqui pra ficar dentro do carro? Bora sair!

Meu amigo estava entusiasmado, eu nem tanto. Falávamos sobre invadir esse casarão desde o ano passado, mas falar era mais fácil do que fazer. A coragem não chegava nunca. Os ''benefícios'' de invadir um local desses, porém eram enormes. Ninguém tinha fotos de lá de dentro, e se postássemos na internet ficaríamos conhecidos. Sem falar que deveria ser um bom lugar pra levar as garotas. Transar lá dentro deve dar uma adrenalina daquelas(claro que a ideia era bizarra, mas ela sempre vinha a tona quando bebíamos muito). Foram estes pensamentos que encorajaram nossos idiotas e anestesiados cérebros a finalmente lançarem sinais elétricos ao nosso corpo, fazendo com que nos mexessemos para fora do carro. Mas antes de finalmente sair eu ainda disse:

- Calma um pouco, deixa eu dar mais uma olhada. Nunca se sabe né?

- Tá, tá. Pega aqui minha lanterna então.

- Boa. - Agradeci.

Para chegar até a porta, antes era preciso subir o pequeno lance de escadas de mármore. Cinco degraus ao todo. A luz da lanterna permitia uma boa visão. A tintura da porta e das paredes estavam desgastadas, e pequenos buracos haviam se formado nos enormes pilares de concreto que sustentavam o que parecia ser uma sacada do segundo andar. Ao lado da porta principal haviam 3 enormes janelas de vidro, uma delas havia levado uma pedrada.

Estava ficando cada vez mais frio, e uma leve e fina garoa começou a cair. Eu estava tentando enxergar além, mas infelizmente estava escuro demais e nem mesmo a luz da lanterna conseguia penetrar o vidro das janelas.

- Tá bem, então. Se tu for eu vou. Mas não vá, por favor.

Meu amigo fechou a jaqueta, colocou o boné e abriu a porta.

- Bora.

- Merda. - sussurrei.

Ele então caminhou subiu as escadas e parou perto da porta, virou o rosto e olhou pra mim, num gesto de ''tá esperando o que?.'' Eu estava parado de pé do lado de fora do carro, com a porta aberta. A luz da lanterna acesa, acompanhando meu amigo a medida que ele prosseguia. Voltei a argumentar sobre o que estávamos fazendo. Acho que a esse ponto o efeito da bebida já estava passando, e ao meu ver, era melhor se estivéssemos ali de tarde. Meu amigo, porém, acabou me convencendo.

- Tá bom, tudo bem seu merda. Mas espera um pouco que vou mijar antes. - disse finalmente.

Ele concordou, me dizendo pra não demorar. Fui até a árvore mais próxima e descarreguei o que tinha pra descarregar. Aquilo foi tão bom que até me encorajou. Mas quando virei não encontrei meu amigo.

- Falk?

Chamei por ele, gritei. Mandei ele tomar no cu por estar querendo me assustar, mas nada. Nem sequer uma resposta. Olhei pra todos os lados, iluminando as áreas mais escuras com a lanterna, mas nem sinal mesmo dele. Foi quando percebi que a porta da frente estava ligeiramente aberta. Aquilo me deixou puto da vida. Ele entrou sem mim, que desgraçado.

Peguei o celular para olhar a hora, já eram 4:03 da manhã. Voltei a guarda-lo no bolso e caminhei em direção a porta, mas logo que pisei no primeiro degrau uma sensação horrível passou pelo meu corpo. Eu simplesmente travei. Um frio na espinha me fez ficar imóvel de repente. A temperatura parecia ter caído uns dez graus em menos de 1 minuto.

Numa tentativa de adiar um pouco minha entrada no casarão, decidi voltar ao carro pra pegar minha jaqueta. Peguei-a e quando me virei as luzes da casa se acenderam e vi meu amigo parado na porta. Ele vestia terno, estava pálido e caminhava lentamente em minha direção. O pavor tomou conta de mim por completo. Abri a porta do carro, corri até meu amigo e o fiz entrar no carona.

- Merda, merda! Foi um erro a gente ter vindo aqui. Eu sabia! Merda!

- Vai... Tira a gente daqui. - Sussurrou ele. Seus lábios estavam com uma coloração roxa.

Nesse momento a chuva engrossou e trovoadas começaram a penetrar entre as árvores. As luzes do casarão voltaram a apagar. Nossos corpos foram jogado pra trás assim que enterrei o pé no acelerador. Nem me preocupei em usar a estradinha, fui cortando caminho pelo matagal até chegar nos portões de saída.

Estávamos na estrada agora. A chuva estava muito forte e as trovoadas eram frequentes. Uma rápida olhada no retrovisor mostrou a expressão de horror na minha face.

- Co - C - Coloca o cinto cara, coloca ele. - Falei gaguejando.

Falk não me respondeu isso. Olhei novamente pra ele. Seus lábios estavam ainda mais roxos, e sua pele super pálida. Ele não estava nada bem, precisava imediatamente ir a um hospital. Mas meus pensamentos foram cortados assim que ele começou a falar.

- Estamos bem longe da casa já, não é mesmo?

- Sim, estamos. Acho que sim. - Respondi, tentando olhar pra ele e pra estrada ao mesmo tempo. Mas era melhor me focar na estrada, pois com aquele tempo, mal dava pra enxergar o que havia a frente.

- Ótimo, então... - Sua mão encostou no meu ombro. - ... nunca mais volte lá, nem por mim, por favor.

No momento em que ele disse isso, olhei pro lado e não o vi mais. No susto, freei o carro bruscamente, derrapando na pista molhada. Quando o carro finalmente parou, olhei para o banco de trás. Nada. Sai do carro em meio a chuvarada, procurando pelo meu amigo, gritando o nome dele, mas não o encontrei em lugar nenhum. Já chorando, liguei para seu celular, varias vezes. Na última tentativa alguém atendeu.

- Falk!? Falk!?

Mas do outro lado da linha ninguém respondia. Não ouvi vozes nem nada, apenas uma bela canção tocava ao fundo. Uma canção de ninar.

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