O despacho.

Cléber era quase como um irmão para Jonas, se conheciam desde que eram muito pequenos e eram amigos inseparáveis. Os dois foram para a mesma escola e sempre estavam na mesma classe.

Um dia, o professor de ciências enviou uma tarefa um pouco estranha mas, certamente divertida: 
Os alunos deveriam trazer amostras de diferentes tipos de terra do solo de acordo com uma determinada profundidade, as amostras deveriam ser colocadas em uma garrafa pet de 2 litros que deveria ter uma marcação para cada tipo de terra à cada 5 centímetros.




Como de costume, Jonas e Cléber se uniram para o trabalho escolar mas, na verdade o "trabalho" era um pretexto, uma desculpa para não ter que ir à escola e poderem andar pela a floresta que se encontrava nos arredores da cidade.

Uma vez lá, decidiram não se aprofundarem muito pela a floresta, não queriam correr o risco de se perderem até porque, o local já tinha um enorme índice de relatos de pessoas inexperientes que ficaram perdidas pela a floresta, (em alguns casos com resultados fatais). 

Marcaram com giz toda árvore que passavam para não confundirem o caminho de volta mas, distraídos e empolgados foram bem mais longe do que haviam combinado até que, chegaram em uma clareira cheia de pedras que ficava bem no meio da floresta.

-Esse lugar é perfeito para a escavação, com certeza não incomodaremos as raízes das árvores, e também aquelas pedras são perfeitas para um descanso e para podermos comer nossos lanches - disse Jonas.

- Vou me sentar e comer enquanto você cava o solo sozinho - brincou Cléber. 

- Faremos o seguinte, comemos os sanduíches agora e com o estômago cheio jogamos cara ou coroa -  disse Jonas pois, estava com fome com muita fome.

Depois de quinze ou vinte minutos de risos e piadas, terminaram o almoço e Jonas tirou uma moeda e disse:

- O perdedor cava primeiro, serão cinco minutos cada até enchermos a garrafa.

- Ok, prepare-se para perder - respondeu Cléber. 

Cada um escolheu seu lado da moeda, ela foi lançada para o alto e quando caiu já se sabia quem era o perdedor... 

Jonas, um pouco chateado, começou a procurar em todos os lugares para escolher por onde começar a cavar e não demorou muito ao avistar um monte de cogumelos vermelhos com pontos brancos, todos crescendo juntos no mesmo lugar. Isso despertou nele um entusiasmo infantil que o fez correr para cavar no local, como se os cogumelos fossem indicar a possibilidade de encontrar algo interessante no solo.

- Deixarei alguns cogumelos para a bruxa da floresta ou ela ficará sem temperos para o jantar. - disse Jonas,  rindo enquanto cavava.

Cerca de alguns minutos cavando, Jonas precisou tocar a terra com as mãos, ele recolheu um bocado e colocou dentro da garrafa, nesse mesmo momento ele sentiu um arrepio por todo o corpo...

- Estou com calafrios, sinto um estranho medo, não me sinto bem. - disse Jonas.

 - Haha, oh sim, oh sim, esqueci de te dizer,  você está pisando e cavando em uma antiga tumba amaldiçoada, dizem que há um certo fantasma onde você está cavando - disse Cléber, ridicularizando seu amigo.

- Vê se não enche. - respondeu Jonas, que se encheu novamente de coragem e continuou cavando.

Enquanto isso, Cleber explorou o local e até se divertiu jogando futebol com uma pedra...

- Olha, achei uma coisa aqui! - gritou Jonas.

Cléber correu para ver o que Jonas havia encontrado, era uma boneca ruiva que estava soterrada bem ao lado de onde ele estava cavando.

Jonas pegou a boneca em suas mãos e ao olhar para ela sentiu um arrepio percorrendo sua espinha, também sentiu uma sensação estranha em suas mãos, ele não havia percebido mas a boneca que ele segurava estava empesteada de vermes...

- Argh, abaixe isso! - exclamou Cléber, com uma mistura de horror e nojo.

Jonas soltou a boneca no chão e parecia confuso, ele olhou bem para as palmas das mãos e ficou horrorizado ao ver o mesmo que Cléber, vermes e larvas enormes que vieram de dentro da cabeça da boneca de borracha.

A estranha boneca estava envolvida em um pedaço de trapo preto e o que mais chamava a atenção é que ela tinha apenas um olho.

- Cara,  por que você pegou essa coisa nojenta? - perguntou Cléber.

- Sei lá! Parecia bonita. - respondeu Jonas, com um sorriso no rosto.

O olho único da boneca era perturbador,  era  grande e onde deveria ser branco estava pintado de preto, em outras palavras, a boneca tinha um aspecto demoníaco.

- Que tipo de mente doente esconderia uma boneca de um olho só no meio de uma floresta? Por que os vermes se aglomeravam na cabeça dela? - perguntou Jonas.

Ambos, extremamente assustados, resolveram deixar a floresta, eles não corriam mas, andavam o mais rápido que podiam, pararam apenas algumas vezes pois, Jonas vomitou por todo o caminho, bastava se lembrar que tocou em dezenas de vermes com as mãos para seu estômago rejeitar o lanche que havia comido. Mesmo depois de chegar em casa Jonas não deixou de ter náuseas, vomitava muito e seu rosto estava começando a ganhar uma cor pálida.

Os dois amigos pensaram que ele iria se recuperar em poucas horas porém, isso não aconteceu... 

Com o passar do tempo tornou-se cada vez mais magro, pálido e fraco. Parecia um daqueles doentes terminais que passaram anos lutando contra a morte em um quarto de hospital cujos médicos não conseguem diagnosticar uma causa para sua condição. Uma semana depois de desenterrar boneca, Jonas morreu e os médicos não souberam dizer o verdadeiro motivo.

Inconformado com a morte de seu amigo, Cléber começou a buscar respostas para o estado de saúde de Jonas nas bibliotecas, passava horas devorando livros de ciências em busca das respostas que os médicos não tinham.

Os livros eram seus novos amigos e neles buscou todos os tipos de explicações médicas mas, os sintomas de Jonas eram tantos que parecia que ele havia contraído várias doenças mortais simultaneamente.

Depois de muito tempo, enquanto estava na biblioteca, Cléber  encontrou um livro em meio aos da sessão de ciências, era um livro esotérico e obviamente alguém havia colocado na prateleira errada. Tinha a capa velha, era desgastado e muito antigo, daqueles repleto de desenhos estranhos entre suas páginas empoeiradas. 

Cléber o começou a folhear o livro e depois de alguns minutos chegou na página de número 113, nela havia o desenho de uma boneca como a que Jonas havia encontrado naquele dia na floresta (exceto que não era caolha), e junto do desenho um texto que dizia:

"Para aquele que tem um mal incurável:  Deverá enterrar uma boneca como aquela que aqui é descrita. Depois de ter o ritual preparado, clame a seguinte oração: Doença que não é minha, doença que não me pertence, deixe meu corpo de humano e se alastre por esse ser sem vida que foi criado por minhas mãos."

Havia também, uma advertência no livro que dizia: 

"O boneco deverá ser enterrado no profundo do desconhecido para que nem um curioso o toque, ai daquele que o tocar pois esse, tomará para sí todo o fardo e toda a dor que o boneco carregar."

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